Graciliano e Lula – Por Emiliano José

Ninguém pode negar a importância do Bolsa Família no inusitado processo de transferência de renda que temos assistido no Brasil nos últimos 8 anos. No entanto, pretender limitar tal processo apenas a esse programa do governo Lula é um equívoco de bom tamanho. Ouvi esse alerta da professora Tânia Bacelar, da Universidade Federal de Pernambuco, em conferência realizada em Guarulhos, São Paulo, para uma atenta platéia de dirigentes do Partido dos Trabalhadores. É sempre um privilégio assistir Tânia Bacelar – ela alia uma inegável competência acadêmica a um compromisso fundamental com o povo brasileiro. Ela encarna o exemplo típico do intelectual orgânico a que Gramsci se referia.

Ao Bolsa Família deve se agregar, necessariamente, para que se compreenda de modo mais denso o processo de transferência de renda em curso no País, a Previdência Rural, todas as políticas desenvolvidas pelo Ministério do Desenvolvimento Social, o aumento real do salário mínimo, o apoio dado à agricultura familiar (cujo financiamento passou dos R$ 2 bilhões no governo FHC para quase R$ 16 bilhões neste ano) e a ampliação do crédito, que passou de 22% do PIB no governo anterior para 45% do PIB sob o governo Lula. É isso que explicaria a retirada de 28 milhões de pessoas da miséria absoluta e a ascensão de 32 milhões de brasileiros à condição de classe média.

Deixou claro que o conjunto das políticas sociais do governo Lula foi que alavancou a economia brasileira nos últimos anos. Nesses oito anos, o governo desenvolveu um modelo de consumo e produção voltado para as grandes massas. Olhou para o consumo insatisfeito da ampla base excluída de nossa população. Assim, o padrão de crescimento brasileiro nesse período esteve voltado para o consumo de massa, o que provocou uma forte criação de empregos (o desemprego cai quase 30% entre 2003 e 2010), com aumento e desconcentração da renda do trabalho. A renda anual do trabalho cresceu, segundo a professora, 14,3% de 2003 a janeiro de 2010. O Brasil está mudando, e muito.

O tema dela, no entanto, foi a política regional, ou as desigualdades regionais, ainda evidentes no País. Sem esquecer, neste caso, de outro alerta dela: desigualdades regionais existem mesmo nos Estados considerados ricos, mas a ênfase dela recaiu especialmente sobre o Nordeste, a região que mais impactos positivos teve como decorrência das políticas sociais do governo Lula, e aqui o Bolsa Família desempenhou um papel essencial. Claro que o Bolsa Família chega também a São Paulo, por exemplo. Mas, o impacto do programa sobre a economia paulista é insignificante. No caso nordestino, não.

O Bolsa Família e as demais políticas sociais do governo Lula, junto com o salário mínimo, modificaram a cara do Nordeste. Ao contrário do que muitos pensam, o emprego formal cresceu muito mais no Nordeste que no resto do País. Também o crédito cresceu mais no Norte e Nordeste. Tudo isso, claro, tem a ver também com a retomada do desenvolvimento econômico e com as políticas setoriais nacionais. Estamos longe, ainda, no entanto, de superarmos as distâncias entre o Nordeste o Centro-Sul. Para que os ainda enormes desafios sociais e de desenvolvimento econômico sejam enfrentados é essencial, no entanto, que o novo padrão inaugurado pelos dois governos Lula seja consolidado, e certamente o governo Dilma o fará.

Esse Nordeste, visto no conjunto, não pode mais ser confundido com o Nordeste de Fabiano, de Sinhá Vitória, da cadela Baleia, o Nordeste Graciliano de Vidas Secas, embora ainda tenha muito dele. Ele já é um Nordeste novo, com dinamismo econômico, e que deve mudar muito mais, para melhor, nos próximos anos, a seguir o padrão desses oito anos. Lula foi o Fabiano que desceu para o Sul e cujo coração nunca deixou de ser nordestino. Manteve-se fiel às suas origens, ao lado do povo brasileiro, mas especialmente do povo nordestino. Esteve sempre ao lado dos mais pobres. E Dilma, temos certeza, persistirá nessa trajetória por ser a intérprete legitimada de um projeto que está mudando o Brasil. Para muito melhor. A cidadania brasileira quis continuar a mudança.

Publicado no jornal A Tarde (06/12/2010)

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