A imprensa vestal e a cruzada contra a corrupção – Por Ernesto Marques *

Ernesto Marques

Escrever é uma forma de falar sem ser interrompido, disse um francês. Parafraseando Jules Renard, diria que é uma possibilidade de falar sem ser interrompido. Gostaria que cada leitor chegasse ao ponto final, mas entenderei se faltar paciência porque tenho a pretensão de provocar. Inspirado por um amigo que partiu semana passada, quero denunciar a dose perniciosa de hipocrisia que permeia o debate imprescindível sobre corrupção. As conseqüências deste processo para a vida brasileira serão mais ou menos efetivas, para o bem e para o mal, na proporção direta da qualidade dos debates que fazemos em espaços como o Política Hoje. Se queremos evoluir como sociedade democrática, precisamos extrair deste momento algo além dos apedrejamentos midiáticos que temos visto desde a Velha República.

Nosso passado recente mostra que a imprensa brasileira sempre foi muito mais que testemunha ocular da história. Ontem, hoje e sempre, as empresas de comunicação orientam suas estratégias de acordo com interesses legítimos ou ilegítimos – e os dois tipos moveram, no passado, e podem estar a mover empresas de comunicação em mais esta cruzada contra a corrupção.

Os trabalhadores da notícia não deveriam embarcar acriticamente nas campanhas dos donos da mídia, como as vezes acontece. A promiscuidade marcante nas relações entre imprensa e poder é verdade provada em fatos infelizmente fartos em nossa história. Rui Barbosa por certo teve suas razões para chamar a imprensa de indústria prostibular. Quando não são os próprios protagonistas, jornais e jornalistas invariavelmente são reduzidos à condição de meios empregados em favor de fins nada elevados. Já era assim na França de Balzac. Getúlio, Juscelino e Jango talvez sejam os exemplos mais fortes do preço que a sociedade paga quando o moralismo rasteiro e a hipocrisia ditam a pauta da imprensa.

Pode haver circunstâncias atenuantes, mas o submisso e o venal são igualmente nefastos. Se um médico pratica ou aceita a degradação da medicina com risco para a integridade de seus pacientes, está sujeito a um processo ético disciplinar cuja sentença máxima é o banimento da profissão. A sociedade busca proteção nos conselhos profissionais da área da saúde, mas a má conduta no jornalismo é tolerada em nome da liberdade de imprensa. A democracia fica em risco quando os compromissos éticos de profissionais e empresas de comunicação passam a ser vistos como romantismo puro e simples, como se fosse ingenuidade atentar para o papel social do jornalismo.

Seria muito bom ver as ruas como nas marchas pela anistia e pelas diretas, por exemplo. Naquela época as multidões se reuniam e marchavam por uma pauta específica: anistia ampla, geral e irrestrita na década de 1970 e, com a participação dos que voltaram do exílio, o Brasil foi buscar nas ruas, o direito de eleger diretamente seus governantes. Mas jaborices à mancheia não foram suficientes para encher praças e avenidas. E não foi porque a juventude de hoje é menos engajada ou porque a UNE foi cooptada, como dizem aqueles que há muito fazem coro pela criminalização dos movimentos sociais.

Se o PIG existe, é então muito mais velho que o Partido Comunista de 1922. Vem do tempo em que satanás já pregava quaresma contra a corrupção em página de jornal por ainda não dispor dos meios eletrônicos de massa. A persistência das causas estruturais da corrupção – no centro delas, os mecanismos institucionais que sacralizam a impunidade – provam a insuficiência das campanhas midiáticas com a de agora. Ainda não vi uma proposta objetiva e suficientemente clara de reforma da legislação que permite, para o gáudio dos advogados, uma infinidade de recursos, agravos e embargos habilmente usados pelos bons escritórios de advocacia do mercado para manter corruptos e corruptores impunes. A OAB, das mais importantes instituições brasileiras, quer lançar luzes sobre o andamento de processos. Muito pouco. Bem poderia formular e patrocinar proposta que encurtasse o caminho até um presídio para meliantes de batina, farda, toga, jaleco, colarinho branco ou qualquer indumentária identificadora de corporações organizadas para sobrepor seus interesses aos interesses da sociedade. Seria, com absoluta certeza, a única unidade do sistema prisional brasileiro em que negros e negras estariam em minoria.

A fumaça saída das fogueiras desta inquisição midiática fede à mesma hipocrisia que um dia demonizou pessoas para queimar idéias junto com seus corpos. Zé Dirceu e Orlando Silva podem arder na fogueira, mas Roberto Jeferson e agora o soldado João Dias são colocados em lugar diferente daqueles a quem denunciam. O primeiro, deputado e presidente de um partido, não poderia ser menos que cúmplice do esquema de compra de votos celebrizado como mensalão. O outro, soldado da PM melhor remunerada do Brasil, tem casa de luxo e três carrões que um coronel honesto não poderia bancar com seu soldo. Refere-se às entidades que dirigia como “minhas ONGs” e isso não é destacado na cobertura.

Quem conhece a imprensa por dentro sabe que há razões para temê-la de fora. Mas não há outro remédio para os excessos cometidos em nome da liberdade de imprensa do que assegurar a mais absoluta liberdade para o trabalho dos profissionais e empresas. Daí a importância de a sociedade se proteger desses excessos pelo caminho da responsabilização. A mesma democracia que depende da imprensa livre não sobrevive sem respeito a limites. Corremos sim, o risco de um golpe midiático conduzir a nação a mais um simulacro de julgamento sem processo e sem direito de defesa. O debate continua!

* Ernesto Marques é radialista, jornalista e atual vice-presidente da Associação Bahiana de Imprensa.

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