MARCELO FREIXO: A CAUSA DE UMA VIDA – Por Maurício Fabião*

Deputado Estadual Marcelo Freixo - PSOL/RJ

Em 2010 eu fui convidado para dar uma série de palestras numa escola técnica em Niterói, logo após as chuvas que devastaram as comunidades. No final de um longo e bom dia de debates com professores e alunos, um técnico alto, magro, barbudo, que me acompanhava em silêncio o tempo inteiro me falou assim: “Sabe esse Marcelo Freixo? Ele é meu amigo. Coitado, não pode nem tomar uma cerveja na beira da praia! Mas esse foi o caminho que ele escolheu, né? A milícia matou o irmão dele, que administrava um condomínio, porque ele expulsou eles de lá. O Marcelo jurou no túmulo do irmão que iria fazer de tudo pra fazer justiça”. Verdade ou não, o fato é que a história oficial confere.

Eu conheci pessoalmente o Marcelo só ano passado. Mas por um motivo muito simples: ele me incomodava muito! Sério! Todo lugar que eu ia, tava o cara lá. Tinha passeata de professor? Tava o Marcelo lá, negociando com a polícia, metendo o dedo na cara do governador em cima do carro de som. Tinha marcha dos sem-terra? Tava o chato do Marcelo lá! Funk era cultura? Advinha o mala que tava lá? Falava em direitos humanos, advinha quem aparecia? Putz, esse cara não me deixava em paz! E o pior, tudo o que ele fazia era de acordo com o que eu e um monte de gente boa acredita. O cara parecia um Dom Quixote concentrado, afiado, sobriamente utópico, que enfrentava os Dragões da Maldade que queriam se passar por roda-moinhos…

O curioso é que quando conheci o Marcelo, ele se pareceu meio desconfiado, do tipo: “Que merda que esse cara quer me meter?”. O Edu e o Sidney que garantiam que uma palestra, às vezes, é só uma palestra… E lá foi ele. Chegando lá, tomou um susto: deu de cara com um convidado meu super-especial pra ele. Um ex-detento, com o qual ele negociou a pior rebelião da vida dele, estava recuperado. Ele ficou emocionado, sem jeito e perguntou: “O que que eu falo?” Eu falei: “Pô, fala de educação prisional. Só você fala disso.” E ele deu um show: se emocionou e emocionou a plenária. Onde no Brasil você viu um político fazer isso e realmente significar alguma coisa? Você pode dizer: “Ah, tá babando o ovo do cara! Dá um tempo!”. Mas o Marcelo não é tipo de deputado que fala como deputado: não tem grandes gestos, não se exalta à toa, não é poético, ao contrário – é muito racional, irritantemente atento aos detalhes, pra ele nunca tá bom. Um mala, né? Intrigante, no mínimo…

Tem uma coisa do Marcelo que me intriga profundamente: como é viver com a cabeça à prêmio, todos os dias? Como é ir numa festa com a sua esposa e ficarem dois policiais à paisana te olhando o tempo inteiro? Como é receber um documento que diz que o preço da sua vida é R$ 400 mil e ir trabalhar no dia seguinte? Desde 2008, quando presidiu a Comissão Parlamentar de Inquerito (CPI) das Milícias, Marcelo sofre ameaças de morte. Sabe por que? Porque o “louco”, ao invés de empurrar o mandato com a barriga (como a maioria faz), resolveu cumprir a promessa feita ao irmão e enumerou 58 sugestões para erradicar a Milícia do Rio de Janeiro. Detalhe: Milícia é um tipo de Máfia que é formada por policiais ou ex-policiais na sua maioria (tutto bona gente, bambino), que dominam belicamente e economicamente uma ou mais comunidades populares. Aí, em vez do Marcelo se fazer de bobo, não, foi cutucar a fera com vara curta. Resultado: mais de 500 prisões desde 2008, dezenas de ameaças de morte desde então e a mudança de visão política e cultural da Milícia, pois “o inimigo agora é outro”, como diz o slogan do filme “Tropa de Elite 2”, o filme mais visto na história do cinema, gritantemente inspirado no Marcelo Freixo (que aparece no filme).

Meu amigo, se te ameaçam de morte, o que você faz? Você ficaria ou pediria o chapéu? Se ameaçam não só à você, mas à sua família, seus colegas de trabalho, você iria encarar? Companheiro, com toda segurança do mundo no seu pé, você não diria: “Valeu, galera. Essa é a minha deixa. Tá legal pra mim. Fui!”? Você, realmente, ia encarar dezenas de ameaças à sua vida? Sinceramente, eu não encararia. Mas o doido do Freixo diz: “Não fiz mais do que a minha obrigação. Vamos avançar!”. Acho que o problema dele não é colete à prova de bala, mas sim camisa de força!!!

Agora, chega de brincadeira. O Marcelo é um dos poucos (se não o único) político de esquerda que efetivamente botou o dedo na ferida do crime. Como diz o Luiz Eduardo Soares (meu professor no mestrado), a esquerda sempre teve dificuldade em lidar com o crime, tendendo a vê-lo apenas como um sub-produto das desigualdades sociais. O Freixo já cumpriu a “pena” dele em presídios: 16 anos dando aulas de História para detentos. Não por considerá-los coitadinhos, mas por entender que se eles não têm condições iguais de serem humanos, não há humanidade para ninguém, só há privilégios para o andar de cima e chibatada para a patuléia (como escreveria Elio Gaspari).

Muita gente entende mal os Direitos Humanos. Acham que é para defender bandido. A história desse mal entendido é longa e não cabe aqui. Basta dizer que Direitos Humanos é uma receita de bolo de como alguém pode viver com dignidade. Há dignidade quando alguém domina de forma autoritária a sua vida? “Quando não é comigo, eu não me importo”, cinismo bem destacado pelo Desembarador Siro Darlan. No momento em que a gente perde a capacidade de se ver no outro, a gente perde algo da nossa humanidade. O Freixo não perdeu essa capacidade, ao contrário, parece que a amplia a cada ameaça, à cada dificuldade.

Eu estou escrevendo esse artigo não porque eu sou do partido do Freixo (não sou, nem quero ser filiado à nenhum partido, mesmo), ou porque recebo alguma quantia por isso (não seria de todo ruim…), mas por um motivo muito simples: eu lembro onde eu estava quando as Torres Gêmeas caíram. “An??? O que isso tem a ver?” É o seguinte: eu não quero me lembrar de onde eu estaria se acontecesse um atentado contra o Freixo (não vai acontecer!). Mas sabe por que? Não é porque eu gosto do cara (é óbvio que eu gosto, não escondo de ninguém) ou porque ele é uma estrela em ascensão (foi o segundo deputado estadual mais votado do Rio em 2010 e eu, orgulhosamente, fiz campanha para ele). Mas o problema é referente à algo que o Maurício Andrade (fundador da Ação da Cidadania junto com o Betinho) me disse pouco antes de morrer: falta referência no Brasil.

Sinceramente, se você vai falar de grandes brasileiros para as novas gerações, quem você cita? Neymar? Ganso? Ivete Sangalo? Quem pode servir de exemplo? Confesse, são poucos. São poucos os brasileiros que carregam estampado no peito o verso “verás que um filho teu não foge à luta”. Acredite ou não, Marcelo Freixo é um dos poucas referências do que há de melhor no Brasil. Sabe por que? Porque ele combina como poucos as palavras caráter e coragem. Perder o Marcelo seria perder um pouco do sonho de Aristóteles, quando escreveu que “política é a arte de fazer o maior bem possível, para o maior número de pessoas”.

O intuito desse artigo não é fazer você gostar mais ou menos do Freixo. Isso pouco importa. Só gostaria, de verdade, que você compreendesse que uma série de ameaças à vida de uma autoridade pública é uma ameaça à Soberania Nacional e ao Estado de Direito. Em outras palavras: se um deputado não está seguro, ninguém está. Não quero proteção só para o Marcelo, quero para todas as vítimas de violência, todas! Mas, mais do que isso: quero o fim do crime, seja o tráfico, seja a milícia. E, para isso, é preciso mudar radicalmente a polícia. Como disse o diretor José Padilha, hoje, na OAB-RJ: “Antes de ter uma Unidade de Polícia Pacificadora, tínhamos que ter uma Unidade Pacificadora da Polícia!” O tráfico e a milícia só existem, pelo menos no Rio de Janeiro, porque a banda podre da polícia deixa e lucra com isso. Se não mudar a relação do Estado com o crime, os defensores de direitos humanos continuarão sofrendo ameaças às suas vidas.

Hoje é o Dia Internacional de Erradicação da Pobreza (só o Eduardo Suplicy e eu sabemos disso). Certa vez, uma liderança aqui do Andaraí me disse que pobreza é a falta de perspectivas. Qual é a perspectiva do Rio? Ser uma cidade que vai passar décadas pagando pelas Olimpíadas ou ser uma cidade onde todos tenham uma vida digna? Responda você.

Rio, 17/10/2011

*Maurício França Fabião é mestre em ciências sociais pela Uerj, gestor do Instituto Mais Cidadania e coordenador do Comitê Rio da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

Mais artigos: http://mauriciofrancafabiao.blogspot.com

Contatos: mauriciofabiao@hotmail.com. © Copyleft:

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