A mensagem da juventude do Brasil – Por Luis Inácio Lula da Silva, no Jornal The New York Times

Ex-Presidente Lula em sua passagem pela Itinga, Lauro de Freitas, em maio de 2008, ao lado do então Secretário de Governo e autor do Blog, Apio Vinagre

Ex-Presidente Lula em sua passagem pela Itinga, Lauro de Freitas, em maio de 2008, ao lado do então Secretário de Governo e autor do Blog, Apio Vinagre

O períódico americano The New York Times publicou nesta terça feira (16) o Artigo do Ex-Presidente Luis Inácio Lula da Silva, intitulado “The Message of Brazil’s Youth – A mensagem da juventude Brasileira”, no qual tece uma análise dos recentes acontecimentos na vida social e política brasileira.

Segundo Lula as manifestações ocorridas no Brasil “refletem uma forma de aumentar o alcance da democracia, de incentivar as pessoas a participarem mais plenamente.” e que “Na última década, o Brasil dobrou o número de estudantes universitários, muitos de famílias pobres. Reduzimos drasticamente a pobreza e a desigualdade. Estas são conquistas significativas, mas é completamente natural que jovens, especialmente aqueles que estão obtendo coisas que seus pais nunca tiveram, possam desejar mais.”

Após explanar sobre o tema Lula manda uma mensagem firme aos jovens brasileiros e de outros lugares, líderes destes e de outros movimentos: “mesmo quando você estiver desanimado com tudo e com todos, não desista da política. Participe! Se você não encontrar em outros o político que você procura, você pode encontrar ele ou ela em si mesmo.”

Confira a íntegra da Entrevista do companheiro Lula (em inglês) no site do “The New York Times”

Abaixo você confere o Artigo (em português), traduzido pelo nosso blog:

A mensagem da juventude do Brasil, Por Luis Inácio Lula da Silva*

São Paulo — Jovens, com dedos rápidos em seus celulares, tomaram as ruas ao redor do mundo.

Torna-se mais fácil explicar estes protestos quando eles tomam lugar nos países não democráticos, como no Egito e Tunísia, em 2011, ou em países onde a crise econômica aumentou o número de jovens desempregados para patamares assustadores, como na Espanha e na Grécia, do que quando eles emergem em países com governos democráticos e populares — como o Brasil, onde atualmente desfrutamos das menores taxas de desemprego em nossa história e uma expansão sem precedentes de direitos econômicos e sociais.

Muitos analistas atribuem os recentes protestos a uma rejeição da política. Eu acho que é exatamente o oposto: eles refletem uma forma de aumentar o alcance da democracia, de incentivar as pessoas a participarem mais plenamente.
Eu só posso falar com autoridade sobre o meu país, Brasil, onde eu entendo que as manifestações são, em grande parte, o resultado do sucesso social, econômico e político. Na última década, o Brasil dobrou o número de estudantes universitários, muitos de famílias pobres. Reduzimos drasticamente a pobreza e a desigualdade. Estas são conquistas significativas, mas é completamente natural que jovens, especialmente aqueles que estão obtendo coisas que seus pais nunca tiveram, possam desejar mais.

Estes jovens não viveram sob a repressão da ditadura militar, nas décadas de 1960 e 1970. Não viveram sob a inflação da década de 1980, quando a primeira coisa que fazíamos ao recebermos nossos salários era correr para o supermercado e comprar tudo antes que os preços subissem novamente no dia seguinte. Lembram-se muito pouco da década de 1990, quando a estagnação e o desemprego levaram nosso país à depressão. Eles querem mais.

É compreensível que deva ser assim. Eles querem a melhoria da qualidade dos serviços públicos. Milhões de brasileiros, incluindo aqueles na classe média emergente, compraram seus primeiros carros e começaram a viajar de avião. Agora, o transporte público deve ser eficiente, tornar menos difícil a vida nas grandes cidades.

As preocupações dos jovens não são meramente materiais. Eles querem maior acesso ao lazer e às atividades culturais. Mas, acima de tudo, eles exigem instituições políticas que sejam mais limpas e transparentes, sem as distorções do anacrônico sistema político e eleitoral do Brasil, que recentemente mostrou-se incapaz de viabilizar a reforma. Não se pode negar a legitimidade destas exigências, mesmo por que é impossível encontrar a sua resolução rapidamente. É primeiro necessário encontrar meios, estabelecer metas e definir cronogramas.

Democracia não é um pacto de silêncio. Uma sociedade democrática está sempre em fluxo, a debater e definir suas prioridades e desafios, constantemente, almejando novas conquistas. Somente em uma democracia poderia um índio ser eleito Presidente da Bolívia, e um Afro-americano eleito presidente dos Estados Unidos. Somente em uma democracia poderiam primeiro um metalúrgico e, em seguida, uma mulher serem eleitos Presidente (a) do Brasil.

A história mostra que, quando os partidos políticos são silenciados, e são procuradas soluções pela força, os resultados são desastrosos: guerras, ditaduras e a perseguição das minorias. Sem partidos políticos, não pode haver nenhuma verdadeira democracia. Mas as pessoas não desejam simplesmente votar a cada quatro anos. Elas querem interação diária com os governos locais e nacionais e participar da definição de políticas públicas, oferecendo opiniões sobre as decisões que os afetam a cada dia.

Em suma, elas querem ser ouvidas. Isto cria um tremendo desafio para os líderes políticos. Eles necessitam de melhores formas de engajamento, através de meios de comunicação sociais, no local de trabalho e em campo, reforçando a interação com grupos de trabalhadores e líderes comunitários, mas também com os chamados setores desorganizados, cujos desejos e necessidades não devem ser menos respeitadas por falta de organização.

Foi dito, e com razão, que, enquanto a sociedade entrou na era digital, a política manteve-se analógica. Se as instituições democráticas utilizassem as novas tecnologias de comunicação como instrumentos de diálogo, e não de mera propaganda, elas iriam respirar ar fresco em suas operações. E seria mais eficaz fazê-los em sintonia com todas as partes da sociedade.

Mesmo o partido dos trabalhadores, que eu ajudei a fundar e que contribuiu muito para modernizar e democratizar a política no Brasil, precisa de renovação profunda. Ele deve recuperar suas relações cotidianas com os movimentos sociais e oferecer novas soluções para os novos problemas e fazer ambos sem tratar jovens de forma paternalista.
A boa notícia é que os jovens não são conformistas, apáticos ou indiferentes à vida pública. Mesmo aqueles que pensam que odeiam a política estão começando a participar. Quando eu tinha a idade deles, eu nunca imaginei que iria tornar-me um militante político. Então acabamos por criar um partido político, quando descobrimos que o Congresso Nacional não tinha praticamente nenhum representante da classe trabalhadora. Através da política, conseguimos restaurar a democracia, consolidar a estabilidade econômica e criar milhões de empregos.

Claramente há ainda muito a fazer. É uma boa notícia os nossos jovens quererem lutar para garantir que a mudança social continue em um ritmo mais intenso.

A outra boa notícia é que a presidente Dilma Rousseff propôs um plebiscito, para levar a cabo as reformas políticas que são tão necessárias. Ela também propôs um pacto nacional pela educação, saúde e transporte público, em que o governo federal irá fornecer substancial apoio financeiro e técnico aos Estados e Municípios.

Ao falar com jovens líderes no Brasil e em outros lugares, eu gostaria de dizer-lhes isto: mesmo quando você estiver desanimado com tudo e com todos, não desista da política. Participe! Se você não encontrar em outros o político que você procura, você pode encontrar ele ou ela em si mesmo.

* Luiz Inácio Lula da Silva é um ex-presidente do Brasil, que agora trabalha em iniciativas globais com o Instituto Lula.

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