Trabalhando com Poesia

“…Oh! Deus, perdoe esse pobre coitado, que de joelhos rezou um bocado, pedindo pra chuva cair, cair sem parar… Oh! Deus, será que o senhor se zangou? E é só por isso que o sol se arretirou, fazendo cair toda chuva que há?… Oh! Senhor, pedi pro sol se esconder um pouquinho, pedi pra chover, mas chover de mansinho, pra ver se nascia uma planta, uma planta no chão… Oh! Meu Deus, Se eu não rezei direito, a culpa é do sujeito, desse pobre que nem sabe fazer a oração… Meu Deus, perdoe encher meus olhos d’água, e ter-lhe pedido cheio de mágoa pro sol inclemente se arretirar, retirar… Desculpe, pedir a toda hora, pra chegar o inverno e agora, o inferno queima o meu humilde Ceará… Oh! Senhor, pedi pro sol se esconder um pouquinho, pedi pra chover, mas chover de mansinho, pra ver se nascia uma planta no chão, planta no chão… Violência demais, chuva não tem mais, roubo demais, política demais, tristeza demais, o interesse tem demais!… Violência demais, fome demais, falta demais, promessa demais, seca demais, chuva não tem mais!… Lá no céu demais, chuva tem, tem, tem, não tem, e quando tem, é demais… Pobreza demais, como tem demais! falta demais, é demais, chuva não tem mais, seca demais, roubo demais, povo sofre demais. oh! demais… Oh! Deus. Oh! Deus. Só se tiver Deus. Oh! Deus. Oh! fome. Oh! interesse demais, Falta demais!…” (O Rappa – Súplica Cearense – Comp.: Gordurinha / Nelinho)

“… Moço, peço licença eu sou novo aqui, não tenho trabalho, nem passe, eu sou novo aqui, não tenho trabalho, nem classe, eu sou novo aqui, sou novo aqui, sou novo aqui… Eu tenho fé, fé, que um dia vai ouvir falar de um cara que era só um Zé, Zé, não é noticiário de jornal, não é, é… Não é noticiário de jornal, não é, é… Sou quase um cara, não tenho cor, nem padrinho, nasci no mundo, sou sozinho, não tenho pressa, não tenho plano, não tenho dono… Tentei ser crente, mas, meu cristo é diferente, a sombra dele é sem cruz, dele é sem cruz, no meio daquela luz, daquela luz, vai… Moço, peço licença eu sou novo aqui, não tenho trabalho, nem passe, eu sou novo aqui, não tenho trabalho, nem classe, eu sou novo aqui, sou novo aqui, sou novo aqui… Eu tenho fé, fé, que um dia vai ouvir falar de um cara que era só um Zé, Zé, não é noticiário de jornal, não é, é… Não é noticiário de jornal, não é, é… Sou quase um cara, não tenho cor, nem padrinho, nasci no mundo, sou sozinho, não tenho pressa, não tenho plano, não tenho dono… Tentei ser crente, mas, meu cristo é diferente, a sombra dele é sem cruz, dele é sem cruz, no meio daquela luz, daquela luz, vai… E eu voltei pro mundo, aqui embaixo, minha vida corre plana… Comecei errado, mas hoje eu tô ciente, tô tentando, se possível, zerar do começo e repetir o play, repetir o play… Não me escoro em outro e nem cachaça, o que fiz tinha muita procedência, eu me seguro em minha palavra, em minha mão, em minha lavra… Sou quase um cara, não tenho cor, nem padrinho, nasci no mundo, eu sou sozinho, não tenho pressa, não tenho plano, não tenho dono… Tentei ser crente, mas, meu cristo é diferente, a sombra dele é sem cruz, dele é sem cruz, no meio daquela luz, daquela luz… “ (O Rappa – Meu mundo é o barro – Comp.: Lauro Farias / Marcelo Falcão / Marcelo Lobato / Marcos Lobato / Xandão)

“… A chama da vela que reza, direto com santo conversa, ele te ajuda te escuta, num canto colada, no chão, mas sombras mexem… Pedidos e preces viram cera quente… Pedidos e preces viram cera quente… A fé no sufoco da vela abençoada, no dia dormido, o fogo já não existe ali, saíram do abrigo, são quase nada… A molecada corre e corre, ninguém tá triste… A molecada corre e corre, ninguém tá… Se tudo move, se o prédio é santo, se é pobre, mais pobre fica, vira bucha de balão, ao som de funk… E apertada tua avenida… A cera foi tarrada, não se admire… Se tudo move, se o prédio é santo, se é pobre, mais pobre fica, vira bucha de balão, ao som de funk… E apertada tua avenida… A cera foi tarrada, não se admire… Tá no céu, não espere o tiro apenas mire… A cera foi tarrada, não se admire… Tá no céu balão de bucha não espere o tiro, apenas mire… Depois da benção o peito amassado, é hora do cerol, é hora do traçado, quem não cobre fica no samba atravessado, sobe balão no céu rezado… Depois da benção o peito amassado, é hora do cerol, é hora do traçado, quem não cobre fica no samba atravessado, sobe balão no céu rezado… A chama da vela que reza, direto com santo conversa, ele te ajuda te escuta, num canto colada, no chão, mas sombras mexem… Pedidos e preces viram cera quente… Pedidos e preces viram cera quente… A fé no sufoco da vela abençoada, no dia dormido, o fogo já não existe ali, saíram do abrigo, são quase nada… A molecada corre e corre, ninguém tá triste… A molecada corre e corre, ninguém tá… Se tudo move, se o prédio é santo, se é pobre, mais pobre fica, vira bucha de balão, ao som de funk… E apertada tua avenida… A cera foi tarrada, não se admire… Se tudo move, se o prédio é santo, se é pobre, mais pobre fica, vira bucha de balão, ao som de funk… E apertada tua avenida… A cera foi tarrada, não se admire… Tá no céu, não espere o tiro apenas mire… A cera foi tarrada, não se admire… Tá no céu balão de bucha não espere o tiro, apenas mire… Depois da benção o peito amassado, é hora do cerol, é hora do traçado, quem não cobre fica no samba atravessado, sobe balão no céu rezado… Depois da benção o peito amassado, é hora do cerol, é hora do traçado, quem não cobre fica no samba atravessado, sobe balão no céu rezado…” (O Rappa – Reza vela – Comp.: Lauro Farias / Marcelo Falcão / Marcelo Lobato / Marcos Lobato / Rodrigo Vale / Xandão)

Confira outros sucessos de o Rappa:

“Jamais desanime! Embora sua dor pareça insuportável e sem remédio, ela há de terminar, e a alegria voltará a brilhar em seu coração. Não há noite eterna à qual não suceda a luz de um dia radiante. Dos sofrimentos passados, conservamos apenas uma lembrança quase apagada. Assim acontecerá amanhã com os sofrimentos de hoje. Entregue tudo ao Tempo, que, com sua mão compassiva, balsamizará todas as suas dores.” (Minutos de Sabedoria Pg. 264)

Bom dia pessoal,

Mais um final de semana chegando e, com ele a nossa expectativa de momentos de tranquilidade e de paz com nossas famílias. Desejo a cada um de vocês momentos de felicidade e de descontração. Estamos na época de degustar o caruru de São Cosme e São Damião. Os santos gêmeos são dos mais populares santos da Igreja Católica.

Há relatos que atestam serem originários da Arábia, de uma família nobre de pais cristãos, no século III. Seus nomes verdadeiros eram Acta e Passio.

Um estudou Medicina e o outro Farmácia na Síria e depois foram praticar em Egéia. Diziam “Nós curamos as doenças em nome de Jesus Cristo e pelo seu poder”.

Exerciam a medicina e farmácia na Síria, em Egéia e na Ásia Menor, sem receber qualquer pagamento. Por isso, eram chamados de anárgiros, ou seja, inimigos do dinheiro.

Cosme e Damião foram martirizados na Síria, porém é desconhecida a forma exata como morreram. Perseguidos por Diocleciano, foram trucidados e muitos fiéis transportaram seus corpos para Roma.

Foram sepultados no maior templo dedicado a eles, feito pelo Papa Félix IV (526-30), na Basílica no Fórum de Roma com as iniciais SS – Cosme e Damião.

Há várias versões para suas mortes, mas nenhuma comprovada por documentos históricos. Uma das fontes relata que eram dois irmãos, bons e caridosos, que realizavam milagres e por isso teriam sido amarrados e jogados em um despenhadeiro sob a acusação de feitiçaria e de serem inimigos dos deuses romanos.

Segundo outra versão, na primeira tentativa de matá-los, foram afogados, mas salvos por anjos. Na segunda, foram queimados, mas o fogo não lhes causou dano algum. Apedrejados na terceira vez, as pedras voltaram para trás, sem atingi-los. Por fim, morreram degolados.

Lendas: Existiam num reino dois pequenos príncipes gêmeos que traziam sorte a todos. Os problemas mais difíceis eram resolvidos por eles; em troca, pediam doces balas e brinquedos. Esses meninos faziam muitas traquinagens e, um dia, brincando próximos a uma cachoeira, um deles caiu no rio e morreu afogado. Todos do reino ficaram muito tristes pela morte do príncipe. O gêmeo que sobreviveu não tinha mais vontade de comer e vivia chorando de saudades do seu irmão, pedia sempre a Deus que o levasse para perto do irmão. Sensibilizado pelo pedido, Deus resolveu levá-lo para se encontrar com o irmão no céu, deixando na terra duas imagens de barro. Desde então, todos que precisam de ajuda deixam oferendas aos pés dessas imagens para ter seus pedidos atendidos.

Na mitologia grega, há muito se cultuava esses santos, havendo registros, desde o século V, quando esse culto já estava estabilizado no Mediterrâneo, de cultos que relatam a existência, em seus cultos, de um óleo santo, atribuído a Cosme e Damião, e que tinha o poder de curar doenças e dar filhos às mulheres estéreis.

Alguns grupos concentram seus esforços para demonstrar que Cosme e Damião não existiram de fato, que eram apenas a versão cristã da lenda dos filhos gêmeos de Zeus, Castor e Pólux. Esta versão é combatida por aqueles que acreditam na real existência dos irmãos, embora a superstição que o povo tem muitas vezes faça supor que haja uma adaptação do costume pagão.

O dia de São Cosme e Damião é celebrado também pelo Candomblé, Batuque, Xangô do Nordeste, Xambá e pelos centros de Umbanda onde são associados aos ibejis, gêmeos amigos das crianças que teriam a capacidade de agilizar qualquer pedido que lhes fosse feito em troca de doces e guloseimas. O nome Cosme significa “o enfeitado” e Damião, “o popular”.

Estas religiões os celebram no dia 27 de setembro, enfeitando seus templos com bandeirolas e alegres desenhos, tendo-se o costume, principalmente no Rio de Janeiro, de dar doces e brinquedos às crianças que lotam as ruas em busca dos agrados. Na Bahia, as pessoas comemoram oferecendo caruru, vatapá, doces e pipoca para a vizinhança.
A Igreja Católica Apostólica Romana, desde tempos imemoriáveis até o Calendário Romano de 1962, que vigorou até 1969, celebrava a festa de santos Cosme e Damião no dia 27 de setembro. Porém, em 1969, com a reforma litúrgica, o Calendário Romano passou a comemorá-los no dia 26, pois, considerada a importância de São Vicente de Paulo, também celebrado dia 27, preferiram não pôr as duas Memórias na mesma data. São Vicente ficou com o dia 27, já que era a data sabida de sua morte; já Santos Cosme e Damião, como não se sabe a data de morte deles, tiveram sua Memória movida para o dia 26 de setembro. Ainda assim, católicos tradicionalistas, devotos mais antigos e as religiões afro-brasileiras que também os cultuam, como o Candomblé e a Umbanda, continuam a comemorá-los no dia 27. Apesar da mudança na Igreja Católica, ao menos no Brasil, por conta da tradição, populares continuam fazendo comemorações no dia 27 de setembro.

Cosme e Damião também são celebrados pela Igreja Ortodoxa, mas há três pares de santos Cosme e Damião celebrados por essa Igreja. O mais comumente associado a santos Cosme e Damião médicos na Síria é celebrado em 1º de novembro, como Santos Cosme e Damião da Ásia Menor. Mas há uma celebração em 17 de outubro, de Santos Cosme e Damião da Cilícia, e outra em 1º de julho, de Santos Cosme e Damião de Roma. Os três pares são da classe dos santos anárgiros, isto é, “desapegados do dinheiro”, o que faz com que se pense que os três se referem ao mesmo par.
São considerados no Brasil os Santos padroeiros dos Farmacêuticos e Médicos. A bonita história de São Cosme e São Damião – que por sua vez é marcada por visões diferentes, dependendo da crença de cada religião – demonstra a complementaridade e interdependência que as profissões irmãs, a medicina e a farmácia, possuem. Talvez o sucesso atribuído às curas milagrosas dos irmãos gêmeos, na idade média, nada mais fosse do que a antecipação da divisão do trabalho, ocorrida apenas no século XIII, onde a farmácia foi separada oficialmente da medicina e considerada uma profissão.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cosme_e_Dami%C3%A3o

Nas nossas sugestões de leitura de hoje, dois textos do site Pátria Latina. Vale a pena conferir:

“DILMA NA ONU E A REAÇÃO VIRA-LATA”, Por Cadu Amaral, em seu blog: O discurso da presidenta Dilma Rousseff na abertura da 68ª Assembleia-Geral das Nações Unidas ainda repercute, especialmente nas redes sociais. E o que se vê, em boa quantidade, infelizmente, é o complexo de vira-lata arraigado em muita gente, aliado a quem tenta, de uma forma ou de outra, desmerecer a postura de nossa presidenta.

http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=d41d8cd98f00b204e9800998ecf8427e&cod=12466

“O PESO DA SONEGAÇÃO”, por Ladislau Dowbor, Le Monde Diplomatique – Os vazamentos do dinheiro público – As eleições nos custam R$ 2 bilhões, é até pouca coisa. Mas a manipulação permitida nos custa centenas de bilhões por meio dos mecanismos que se tornaram legais ou de difícil controle judiciário. A deformação do sistema tributário desonera os muito ricos e fragiliza o setor público, reproduzindo a desigualdade.

http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=d0e5de6daedcf05cad800f50b14875e6&cod=12473

Veja a versão de hoje e as anteriores do “Trabalhando com Poesia”, no nosso blog “Espaço de Sobrevivência”. Nele você pode acessar links dos principais sites institucionais e de informações para seu uso. Visite, comente, indique:

https://oipa2.wordpress.com/2013/09/27/trabalhando-com-poesia-516/

Abraços nos amigos beijos nas amigas e nos filhos, com os desejos de muito axé, energias positivas e que a vida e a paz possam sempre reinar em nossos corações e na nossa rotina. Uma sexta-feira abençoada por Deus e coberta pela paz do Alá de Oxalá! Bom final de semana e até segunda feira.

Apio Vinagre Nascimento
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O Ás de Ouro – Tude Celestino

Seu moço, eu já fui incréu,
Mas num baráio, meu patrão,
Nunca mais eu boto a mão
Inquanto huvé Deus no Céu!
Baráio é morte, é ruína,
E pru mode essa silibrina
Pai de famia se mata
Dispôs que impenha a aprecata
E perde a ropa e o chapéu.
Todo jogo é tentação,
Mas num baraio, seu dotô,
Foi que o anjo inganadô
Butô mais quengo e treição
É cum ele que o sujo ganha
As arma qui ele arrebanha
Nos arçapão das cafuas
Pois é u’a verdade nua:
Baráio é a bíbria do cão!
Meu pai já foi home abastado
Quando eu ainda era minino,
Quando eu cresci, seu Celino
Já era, então, um pé rapado.
Vaca, casa, budega,
As casinha, os boi, as égua,
Roça, casa de farinha,
Quando pensou que ainda tinha,
Já o baráio tinha levado.
Migué Celini Paranho
O Ás de Ouro cunhecido,
Era um véio distemido
E ao falá num me acanho,
Ao perdê tudo, meu pai
Dixe ansim: Num jogo mais!
No baráio sapecô fogo
Pagô as dívida do jogo
E foi dá dia de ganho.
Meu pai era um véio pacato;
Cum eu o leite frivia,
Pois sei que o jogo esse dia
Era u’a cama de gato;
E eu dismanchava a baiúca,
Dismantelava a arapuca,
Gritava: Arco de reis!
Matava dois cabra ou três
E me imbrenhava no mato.
Pur quê eu nunca quis tostão
Num seno meu, seu dotô
O meu tumém eu num dô
Nem qui venha um batainhão;
E mode esse rejume,
Eu cunheci o negrume
Do Manto dos disingano
Dos qui leva quinze ano
No fundo de u’a prisão.
Hoje qui tudo acabô
E qui eu já fui perduado,
Qui no baú do passado
Num guardo mais essa dô,
Essa mágua, essa enlusão,
Vô abri meu coração
Qui é pra todo mundo vê
E eu contá pra vamicê
Cuma o caso se passô:
Foi no arraiá dos Firmino
Numa noite de Natá,
In vez de i pra ingrejinha oiá
Nos presepe Deus Minino
Fui foi pr’um jogo que tinha
Na casa de Zé de Aninha,
Um jogadô patotero
Qui robô muito dinhero
Do meu pai – do véi Celino.
Pur o cabra eu tinha rêxa
Guardada no coração,
Dessas que garra um cristão
E nem cum a morte num dêxa.
Atrás do Zé, no sucaro,
Cuma cachorro no faro,
Há muito tempo eu vivia
E ele bem sabia
A razão de minhas quêxa.
Fui e entrei no mundéu;
Zé de Aninha cum distreza
Butava as carta na mesa
Si rino sempre pra eu;
Figurô terno e ás de ouro
Sinti um tremô no coro
E falei cum frio na ispinha:
Nesta ronda, Zé de Aninha,
Os ás qui sai é meu.
Ele dixe: Cuma quêra,
Do princípio inté o fim;
Seu pai tomém era ansim
Mas já lhe fiz a cavêra.
E eu lhe dixe: Mas cum fio
Num ande fora dos trio;
Vou lhe avisá, num se zangue:
Lhe afogo todo em seu sangue
Se jogá cum ladroêra.
E arrancano o meu punhá
Finquei de leve na mesa
Quando larguei, qui beleza,
O cabo tremeu no ar.
Dois capanga do Zé
Qui tavam atrás dele, in pé,
Tremero veno meu fogo;
Zé deu saída no jogo
E cumecemo a jogá.
Meia noite a pressão
Do nosso jogo subia;
Eu no ás sempre perdia
E o Zé si rino… Apois não!
E eu já cheio de incerteza,
Oiei dibaxo da mesa
E vi então cum esses óio
Qui nunca teve dordóio
Dois ás de baráio no chão.
Dano um sarto de cavalo,
Ranquei o punhá da mesa,
E, cum toda ligereza,
Sigurei Zé no gargalo
E dei vinte punhalada
Inquanto qui in disparada
Os dois capanga fugia
E na ingrejinha se uvia
Cantarem a missa do galo.
Quinze ano – ou foi cem?
Eu amarguei na prisão.
Já sou homem de bem;
Só vivo do meu trabáio.
Num peguei mais in baráio,
Dexei aquela vidinha.
Mas o tal de Zé de Aninha
Nunca mais roba ninguém.

A Vingança de Zé de Aninha – Tude Celestino

São João! Fuguete! Istôro!
E eu aqui, queto, iscundido,
Muito triste e arrepindido,
Cum cara de mau agôro.
Eu so fio do Ás de Ouro
Qui, pur disventura minha,
Liquidei o Zé de Aninha
Nu’a noite de Natá
E agora vivo a pená
De um remorso qui me ispinha.
A sorte é quem ditrimina
O qui nós é nesse mundo;
Uns nasce pra vagabundo
E tem qui cumpri a sina,
As vez a gente arrimina
Faz tolice de minino
Mas num distorce o distino.
Zé nasceu pru baráio
Eu, da vida nos ataio,
Triminei seno assassino.
Mas paguei as minhas pena
Todinha à sociedade,
Só inda agora a maldade
Do remorso me condena;
Fecho os óio e vejo a cena
Do Zé a se acabá;
No seu sangue se banhá…
Tombém oiço as pancada
Dos sino, as badalada
Da ingrejinha do arraiá.
Iscute, seu moço, meu azá,
Foi vê naquela vingança
I simbora a isperança
D’eu um dia me salvá,
Dispois de o Zé eu matá,
Num buteco – o Perde e Ganhe
Eu quis inté abri champanhe;
Mas a vingança nos trai:
Jugano vingá meu pai,
Quaje matei minha mãe.
Minha mãe qui sofreu tanto
– Cuma ela merma me contô –
Qui derna qui se casô
Qui veve a derramá pranto,
Fez promessa a todo santo
Pra meu pai – O véi Celino,
Dexá o triste distino,
Do barái dexá os trio
E acabô foi veno o fio
Na prisão como assassino.
E meus ano de prisão,
Qui quaje num acabam mais.
Minha mãe num teve paz,
Só mágua no coração.
E só, naquela aflição,
Lembrei dela – Dona Aninha,
A mãe do Zé, u’a veinha
Qui veve a rezá pur ele.
Eu, veno triste a mãe dele,
Lembrava, triste, da minha.
Parece inté um mistéro.
Qué vê, repare, patrão:
Das grade de minha prisão,
Eu via de perto o impero
Da tristeza – o sumitéro.
E via sigui de pé,
Todo dia u’a muié…
– Era ela, Dona Aninha,
Qui ia toda tardinha
Rezá na cova do Zé.
As duas santas muié,
Sobe ainda na prisão,
Qui passavam privação
Talvez inté fome, inté.
Prá irem, cheia de fé,
U’a vê o fio novamente,
Teno no pé u’a corrente;
A ôta, pru campo santo.
Duas mãe com o mermo pranto
Chorano dô diferente.
Moço, nós tudo um dia
Divia entrá num xadrez,
Passá dois dia ou três,
Veno passá sem alegria
As hora nas inxovia
Mermo sem firi ninguém;
Garanto, qui era um bem
Siria útil a lição,
Diminuía os ladrão,
E os assassino tomém.
Mas, sim, minha penitença:
Paguei toda na prisão,
Mas a arma e o coração,
Tão presa em otra sentença;
No remorso, a mágua imensa
Qui me traz arrepindido,
Me taxaro de bandido
E, ao senti esse horrô,
Eu fiz a nosso senhô
Esse pungente pedido:
Oh! Deus, tenha a arma do Zé
No santo reino da glora
E me dexe vida a fora
Nos ispinho sangrano os pé.
Inté que um dia inté
Eu ganhe de novo a isperança
Qui só penano se arcança;
Dexe,meu Deus, eu sofrê!
E qui seja do meu vivê
Do Zé de Aninha a vingança.

Redenção – Tude Celestino

Sarve, Oh! Deus Onipotente!
Qui criou o céu e o má,
Qui veno a gente pecá
Ainda perdoa a gente;
Sempre bondoso e cremente,
Nos dá toda proteção,
É pai ditoso e, então,
Seu amô é santo, é puro
Qui inté pru crime mais duro
Ele reserva um perdão!
Minha istora é cunhecida
Pur todo esse sertão,
Só ninguém sabe, patrão,
Qui a liberdade quirida,
Quando a gente vê perdida
É qui o remorso aparece
E dentro da gente, cresce.
Mas cadê pudê vortá
Do mei da trama e evitá
As teia qui o diabo tece?
Ao obtê a liberdade,
Num teno mais o meu pai,
Minha mãe, vai mas num vai,
Saí triste, na verdade.
Minha mãe, pur piedade,
Do muito qui ocorreu,
Num relato pra eu.
Ansim, preso, eu num sabia
Qui a fome, muitos dia,
Na sua porta bateu.
Mas minha mãe inda me viu
Gozano da liberdade.
Mas já avançada da idade,
Com mais um ano, partiu.
Me abraçano sorriu
Quando sua hora chegô,
Sorrino me abençoô,
E pru céu, cuma um anjinho,
Ansim Cuma um passarinho,
Sua alma pura vuô.
Fiquei sozinho no mundo,
Inda pur cima, mal visto.
Me agarrei cum Jesus Cristo
Pra num sê um vagabundo.
Meu desgosto era profundo
Quando eu via Dona Aninha
Qui tombém ficô sozinha,
Pois viúva criô Zé,
Qui eu ajuntei os pé
Naquela hora mesquinha.
Deus me perdoe – Ave Maria!
Se vou dizê coisa fea:
Mermo sorto ou na cadea
Eu tinha a merma agonia,
A merma dô me afrigia
Cuma se eu fosse um ateu,
Era triste os dia meu…
Parecia, meu patrão,
Qui Deus, cum toda razão,
Andava cum raiva d’eu.
Apesá de tê dexado
A danada da cadêa
Tinha na alma u’a peia
Eu vivia amargurado.
Tinha um remorso incausado
Qui num achava meizinha,
Mas u’a voz, u’a tardinha,
Me dixe qui pra eu vivê
Eu tinha qui obtê
O perdão de Dona Aninha.
Fui entonce, sem demora,
Pru ranchim, pra casa dela,
Qui, pra mim, virô capela
E ela, Nossa Senhora!
Dona Aninha, minh’alma implora,
Eu vim aqui lhe implorá
Seu perdão; e ela, a me oiá
Cum uns zoinho imbaciado
Me abraçô e, abraçado,
Nós cumecemo a chorá.
Dipois sirrimo. E Jesus,
Num registro na parede
Do ranchim, bem junto à rede,
Tombém sirriu lá da cruz.
A sala se incheu de luz
Viro u’a ingreja a casinha
Diante, intão, da veinha,
Sentei o juei no chão,
De Deus sintino o perdão
No perdão de Dona Aninha.
E ainda, pur sorte minha,
Cumpretano o seu perdão,
Numa noite de São João,
Ela quis sê minha madrinha.
Ansim, a doce veinha
Fez eu isquecê o qui se deu,
O meu passado morreu
E a minha vida hoje é bela.
A minha mãe, hoje, é ela
E o Zé, pra ela, sô eu.
Sarve, Oh! Deus Onipotente!
Qui criou o céu e o má,
Qui veno a gente pecá
Ainda perdoa a gente;
Sempre bondoso e cremente,
Nos dá toda proteção,
É pai ditoso e, então,
Seu amô é santo, é puro
Qui inté pru crime mais duro
Ele reserva um perdão.

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