Trabalhando com Poesia

“… Mas que pampa é essa que eu recebo agora? Com a missão de cultivar raízes. Se dessa pampa que me fala a história, não me deixaram nem sequer matizes… Passam às mãos da minha geração, heranças feitas de fortunas rotas, campos desertos que não geram pão, onde a ganância anda de rédeas soltas… Se for preciso, eu volto a ser caudilho, por essa pampa que ficou pra trás, porque eu não quero deixar pro meu filho, a pampa pobre que herdei de meu pai… Mas que pampa é essa que eu recebo agora? Com a missão de cultivar raízes. Se dessa pampa que me fala a história, não me deixaram nem sequer matizes… Passam às mãos da minha geração, heranças feitas de fortunas rotas, campos desertos que não geram pão, onde a ganância anda de rédeas soltas… Se for preciso, eu volto a ser caudilho, por essa pampa que ficou pra trás, porque eu não quero deixar pro meu filho, a pampa pobre que herdei de meu pai… Herdei um campo onde o patrão é rei, tendo poderes sobre o pão e as águas, onde esquecido vive o peão sem leis, de pés descalços cabresteando mágoas… O que hoje herdo da minha grei chirua, é um desafio que a minha idade afronta, pois me deixaram com a guaiaca nua, pra pagar uma porção de contas… Se for preciso, eu volto a ser caudilho, por essa pampa que ficou pra trás, porque eu não quero deixar pro meu filho, a pampa pobre que herdei de meu pai… E u não quero deixar pro meu filho, a pampa pobre que herdei de meu pai… E u não quero deixar pro meu filho, a pampa pobre que herdei de meu pai…” (Engenheiros do Hawaii – Herdeiro da Pampa Pobre – Comp.: Vaine Darde / Gaúcho Da Fronteira)

“…Suave é a noite, é a noite que eu saio, pra conhecer a cidade e me perder por aí… Nossa cidade é muito grande e tão pequena, tão distante do horizonte do país… Nossa cidade é muito grande e tão pequena, tão distante do horizonte do país… Eu sempre quis viver no velho mundo, na velha forma de viver, o 3º sexo, a 3ª guerra, o 3º mundo, são tão difíceis de entender… Eu sempre quis viver no velho mundo, na velha forma de viver, o 3º sexo, a 3ª guerra, o 3º mundo, são tão difíceis de entender… Suave é cidade, pra quem gosta da cidade, pra quem tem necessidade de se esconder… Nossa cidade é tão pequena e tão ingênua, estamos longe demais das capitais… Nossa cidade é tão pequena e tão ingênua, estamos longe demais das capitais… Longe demais das capitais… Longe demais das capitais… Longe demais das capitais… Longe demais das capitais… Longe demais das capitais… Longe demais das capitais… Eu sempre quis viver no velho mundo, na velha forma de viver, o 3º sexo, a 3ª guerra, o 3º mundo, são tão difíceis de entender… Eu sempre quis viver no velho mundo, na velha forma de viver, o 3º sexo, a 3ª guerra, o 3º mundo, são tão difíceis de entender… O 3º sexo, a 3ª guerra, o 3º mundo… O 3º sexo, a 3ª guerra, o 3º mundo… O 3º sexo, a 3ª guerra, o 3º mundo… O 3º sexo, a 3ª guerra, o 3º mundo… O 3º sexo, a 3ª guerra, o 3º mundo…” (Engenheiros do Hawaii – Longe demais das capitais – Comp.: Humberto Gessinger)

“…Todo mundo tá relendo o que nunca foi lido, todo mundo tá comprando os mais vendidos… É qualquer nota, qualquer notícia, páginas em branco, fotos coloridas… Qualquer nova, qualquer notícia, qualquer coisa que se mova é um alvo, e ninguém tá salvo… Todo mundo tá revendo o que nunca foi visto, tá na cara, tá na capa da revista… É qualquer nota, qualquer notícia, páginas em branco, fotos coloridas… Qualquer rota, qualquer rotatividade, qualquer coisa que se mova é um alvo, e ninguém tá salvo…Um disparo, um estouro… O Papa é Pop, o Papa é Pop! O Pop não poupa ninguém… O Papa levou um tiro à queima roupa, o Pop não poupa ninguém… Uma palavra na tua camiseta, o planeta na tua cama, uma palavra escrita a lápis, eternidades da semana… Qualquer coisa, quase nova, qualquer coisa que se mova é um alvo e ninguém tá salvo… Um disparo, um estouro… O Papa é Pop, o Papa é Pop! O Pop não poupa ninguém… O Papa levou um tiro à queima roupa, o Pop não poupa ninguém… Toda catedral é populista, é pop, é macumba pra turista, e afinal o que é Rock’n’roll? Os óculos do John, ou o olhar do Paul?… O Papa é Pop, o Papa é Pop! O Pop não poupa ninguém… O Papa levou um tiro à queima roupa, o Pop não poupa ninguém… O Papa é Pop, o Papa é Pop! O Pop não poupa ninguém… O Papa levou um tiro à queima roupa, o Pop não poupa ninguém… O Papa é Pop, o Papa é Pop! O Pop não poupa ninguém… O Papa levou um tiro à queima roupa, o Pop não poupa ninguém… O Pop não poupa, O Pop não poupa, O Pop não poupa, ninguém…” (Engenheiros do Hawaii – o Papa é Pop – Comp.: Humberto Gessinger)

“…Hey mãe! Eu tenho uma guitarra elétrica. Durante muito tempo isso foi tudo que eu queria ter… Mas, hey mãe! Alguma coisa ficou pra trás, antigamente eu sabia exatamente o que fazer… Hey mãe! Tem uns amigos tocando comigo… Eles são legais, além do mais, não querem nem saber… Mas agora, lá fora, todo o mundo é uma ilha a milhas e milhas e milhas de qualquer lugar… Nessa terra de gigantes, eu sei, já ouvimos tudo isso antes… A juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes… As revistas, as revoltas, as conquistas da juventude, são heranças, são motivos pras mudanças de atitude… Os discos, as danças, os riscos da juventude, a cara limpa, a roupa suja, esperando que o tempo mude… Nessa terra de gigantes, tudo isso já foi dito antes… A juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes… Hey mãe! Já não esquento a cabeça. Durante muito tempo isso foi só o que eu podia fazer… Mas, hey, mãe! Por mais que a gente cresça, há sempre coisas que a gente não pode entender… Por isso, mãe, só me acorda quando o sol tiver se posto, eu não quero ver meu rosto antes de anoitecer… Pois agora, lá fora, o mundo todo é uma ilha, a milhas, e milhas, e milhas… Nessa terra de gigantes, que trocam vidas por diamantes… A juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes… Nessa terra de gigantes, que trocam vidas por diamantes… A juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes… Hey mãe…..Hey mãe… Hey mãe…” (Engenheiros do Hawaii – Terra de Gigantes – Comp.: Humberto Gessinger)

Confira outros sucessos de Engenheiros do Hawaii:

“Afaste-se dos ambientes mal sãos. Evite as pessoas mal intencionadas. No entanto, se sua presença puder melhorar, sem que com isto sofra sua alma, leve sua virtude mesmo ao antro do vício. Mas faça como o sol, que ilumina e saneia o pântano, sem que seu raio de luz e calor dali se afaste enlameado e fétido. Seja você o espelho vivo de sua fé.” (Minutos de Sabedoria Pg. 026)

Bom dia pessoal,

Mais um final de semana chega e com ela a nossa sempre presente expectativa de momentos de lazer e de diversão junto aos nossos familiares.

Ontem fomos, como em todos os anos, desde a adolescência, à Lavagem do Bomfim. A maior festa religiosa da Bahia continua encantadora e emocionante. Lamentavelmente ainda percebemos aqueles que se esgueiram para aproveitar-se da multidão para furtar, aprontar confusão, entre outras ações negativas. São minoria absoluta, mas, em certos momentos o temor por algo mais grave acaba passando ao nosso lado.

Saí do Bomfim às 13:15 e o Adro da Igreja ainda não havia sido aberto aos verdadeiros donos da festa, o Povo, isso por que, o espaço ficou fechado aguardando sua majestade o Prefeito de Salvador. É preciso respeito seu moço!!!
Me chamou a atenção a bela caminhada do povo católico, que saiu da Conceição da Praia por volta das 8:30. Ao contrário de algumas pessoas, não vejo por que se polemizar essa questão. O bloco Orishalá, desde que saiu pela primeira vez, o faz bem antes do cortejo oficial. Sinceramente me ofende bem mais o impedimento da maioria do povão de participar do primeiro momento no adro da lavagem, em benefício das comitivas oficiais. Será que algum dia veremos acontecer sem essa segregação?

Fazer o trajeto da Conceição da Praia ao Bomfim e o seu retorno é sempre uma experiência interessante. Na ida participo com a alegria e emoção de todos os anos, desde a primeira vez que fui e me apaixonei pela Lavagem.

A volta é dedicada a contemplar as manifestações culturais, do samba, dos blocos afro, do Afoxé Filhos De Gandhy, bem como as figuras super pitorescas que permeiam a nossa mais importante festa religiosa e cultural.
Este ano não foi diferente. E como sempre, após 16 quilômetros de caminhada, a sensação de que valeu a pena mais uma vez. Até 2015!

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Nas nossas sugestões de leitura de hoje, alguns textos do site Carta Capital. Vale a pena conferir:

De quantos mortos precisa o Brasil para reagir contra a homofobia? – Kaique foi morto. Mais um. Outros virão. Cada uma dessas vítimas tem um algoz material — o assassino. Mas há outros, no Congresso, no governo e nas igrejas fundamentalistas, por Jean Wyllys: Mais um. Em outros países, o brutal assassinato de um adolescente homossexual de 16 anos de idade seria uma notícia que comoveria a sociedade e nos chocaria a todos como poucas notícias nos chocam. Um garoto que ainda estava na escola, com toda uma vida pela frente, arrancado da existência, despojado de toda humanidade, com todos os dentes arrancados e uma barra de ferro dentro da perna. Um menino cheio de futuro que acaba seus dias com traumatismo craniano e intracraniano, com o corpo todo sujo, abandonado sem vida numa avenida da região central de São Paulo.

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/de-quantos-mortos-precisa-o-brasil-para-reagir-contra-a-homofobia-865.html

Juízes divergem em decisões sobre “rolezinhos” – Encontros de jovens foram restringidos em quatro shoppings paulistas. Em Campinas, dois magistrados não viram motivos para os eventos serem impedidos – Juízes tomaram decisões distintas sobre a liberdade de jovens fazerem “rolezinhos” – encontros que têm acontecido em shopping centers no Estado de São Paulo. Ao menos seis centros comerciais pediram que os encontros marcados pelo Facebook fossem proibidos. Destes, quatro conseguiram liminares contra os eventos. Em outros dois casos, juízes no interior do Estado permitiram os “rolezinhos”, alegando que não havia motivo para impedi-las.

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/juizes-divergem-em-decisoes-sobre-rolezinhos-5115.html

“Matar um índio para pegar uma índia” – Violência contra os indígenas é antiga como a grilagem de terras; indígenas cobram compensação por danos e mortes causados desde a abertura da Transamazônica – A história do conflito em Humaitá é também a história da BR-130, a Rodovia Transamazônica. A rodovia rasgou a cidade – e também o território ocupado pelos indígenas. Com 4.223 quilômetros, ela foi inaugurada em 1972 pelo ditador Emílio Garrastazu Médici. Agora os Tenharim querem contar com detalhes essa história, como disseram à reportagem da Pública, recebida por eles no dia 3 de janeiro.

http://www.cartacapital.com.br/politica/201cmatar-um-indio-para-pegar-uma-india201d-1035.html

“Jogadores e dirigentes influenciam a violência no esporte” – Às vésperas da Copa, especialista em políticas de combate à violência urbana diz como o Brasil pode se preparar contra incidentes nos estádios – De Nova York: Professor de Estratégias de Segurança na Escola de Justiça Criminal da Universidade John Jay, referência em políticas de combate à violência urbana nos EUA, Robert McCrie iniciou sua vida profissional como segurança em sua cidade natal, Toledo, no estado de Ohio, no coração da América Profunda. Especialista no desenvolvimento de técnicas de proteção ao público em eventos esportivos, é doutor em História do Urbananismo e autor de Security Operations Management.

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/jogadores-tecnicos-e-dirigentes-influenciam-a-violencia-no-esporte-9973.html

Justiça Federal considera que crime praticado por Ustra na ditadura prescreveu – O coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra e do delegado aposentado Alcides Singillo eram acusados de ocultar o cadáver do estudante Hirohaki Torigoem, em 1972 – A Justiça Federal em São Paulo considerou extinta a punibilidade do coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra e do delegado aposentado Alcides Singillo. Ambos eram acusados de ocultação de cadáver pelo desaparecimento do estudante de medicina Hirohaki Torigoe em 1972. À época, Ustra era comandante do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna de São Paulo (DOI-Codi), um dos maiores centros de tortura da ditadura.

http://www.cartacapital.com.br/politica/justica-federal-considera-que-crime-praticado-por-ustra-na-ditadura-prescreveu-8692.html

Veja a versão de hoje e as anteriores do “Trabalhando com Poesia”, no nosso blog “Espaço de Sobrevivência”. Nele você pode acessar links dos principais sites institucionais e de informações para seu uso. Visite, comente, indique:

https://oipa2.wordpress.com/2014/01/17/trabalhando-com-poesia-563

Abraços nos amigos beijos nas amigas e nos filhos, com os desejos de muito axé, energias positivas e que a vida e a paz possam sempre reinar em nossos corações e na nossa rotina. Uma sexta-feira abençoada por Deus e coberta pela paz do Alá de Oxalá! Bom final de semana e até segunda feira.

Apio Vinagre Nascimento
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APONTAMENTO

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
Álvaro de Campos, 1929

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 1928

MAGNIFICAT

Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!

Álvaro de Campos, 1933

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