Trabalhando com Poesia

“… E agora, o que eu vou fazer? Se os seus lábios ainda estão molhando os lábios meus? E as lágrimas não secaram com o sol que fez?… E agora como posso te esquecer? Se o teu cheiro ainda está no travesseiro? E o teu cabelo está enrolado no meu peito… Espero que o tempo passe, espero que a semana acabe, pra que eu possa te ver de novo… Espero que o tempo voe, para que você retorne, pra que eu possa te abraçar e te beijar… De novo… E agora, como eu passo sem te ver? Se o seu nome está gravado no meu braço como um selo? Nossos nomes que tem o “N” como um elo… E agora como posso te perder? Se o teu corpo ainda guarda o meu prazer? E o meu corpo está moldado com o teu?… Espero que o tempo passe, espero que a semana acabe, pra que eu possa te ver de novo… Espero que o tempo voe, para que você retorne, pra que eu possa te abraçar… Espero que o tempo passe, espero que a semana acabe, pra que eu possa te ver de novo… Espero que o tempo voe, para que você retorne, pra que eu possa te abraçar e te beijar… De novo… De novo… De novo… De novo…” (Nando Reis – N – Comp.: Nando Reis)

“… A letra A do seu nome, abre essa porta e entra… Na mesma casa onde eu moro, na mesa que me alimenta… A telha esquenta e cobre, quando de noite ela deita, a gente pensa que escolhe, se a gente não sabe inventa… A gente só não inventa a dor, a gente que enfrenta o mal, quando a gente fica em frente ao mar, a gente se sente melhor… A abelha nasce e morre, e a cera que ela engendra, acende a luz quando escorre, da vela que me orienta… Apenas os automóveis, centenas se movem e ventam, certeza é o chão de um imóvel, prefiro as pernas que me movimentam… A gente movimenta o amor, a gente que enfrenta o mal, quando a gente fica em frente ao mar, a gente se sente melhor… A gente só não inventa a dor, a gente que enfrenta o mal, quando a gente fica em frente ao mar, a gente se sente melhor… Se sente melhor… Melhor… Se sente melhor…” (Nando Reis – A letra A – Comp.: Nando Reis)

“… E quando eu estiver triste, simplesmente me abrace, quando eu estiver louco, subitamente se afaste, quando eu estiver fogo, suavemente se encaixe… E quando eu estiver triste, simplesmente me abrace, e quando eu estiver louco, subitamente se afaste, e quando eu estiver bobo, sutilmente disfarce… Mas quando eu estiver morto, suplico que não me mate, não, dentro de ti, dentro de ti… Mesmo que o mundo acabe, enfim, dentro de tudo que cabe em ti… Mesmo que o mundo acabe, enfim, dentro de tudo que cabe em ti…” (Nando Reis & Skank – Sutilmente – Comp.: Samuel Rosa/Nando Reis)

“… Não é porque eu sujei a roupa bem agora que eu já estava saindo, nem mesmo por que eu peguei o maior trânsito e acabei perdendo o cinema… Não é porque não acho o papel onde anotei o telefone que estou precisando, nem mesmo o dedo que eu cortei abrindo a lata e ainda continua sangrando… Não é porque fui mal na prova de geometria e periga d’eu repetir de ano, nem mesmo o meu carro que parou de madrugada só por falta de gasolina… Não é porque tá muito frio, não é porque tá muito calor… O problema é que eu te amo, não tenho dúvidas que com você daria certo… Juntos faríamos tantos planos, com você o meu mundo ficaria completo… Eu vejo nossos filhos brincando, e depois cresceriam, e nos dariam os netos… A fome que devora alguns milhões de brasileiros, perto disso já nem tem importância… A morte que nos toma a mãe insubstituível, de repente dela eu já nem me lembro… A derrota de 50 e a campanha de 70 perdem totalmente o seu sentido… As datas, fatos e aniversários passam, sem deixar o menor vestígio… Injúrias e promessas e mentiras e ofensas caem fora pelo outro ouvido… Roubaram a carteira com meus documentos, aborrecimentos que eu já nem ligo… Não é porque eu quis e eu não fiz, não é porque não fui, e eu não vou… O problema é que eu te amo, não tenho dúvidas que eu queria estar mais perto, juntos viveríamos por mil anos, por que o nosso mundo estaria completo, eu vejo nossos filhos brincando, com seus filhos que depois nos trariam bisnetos… Não é por que eu sei que ela não virá que eu não veja a porta já se abrindo… E que eu não queira tê-la, mesmo que não tenha a mínima lógica esse raciocínio… Não é que eu esteja procurando no infinito, a sorte pra andar comigo… Se a fé remove até montanhas, o desejo é o que torna o irreal possível… Não é por isso que eu não possa estar feliz, sorrindo e cantando… Não é por isso que ela não possa estar feliz, sorrindo e cantando… Não vou dizer que eu não ligo, eu digo o que eu sinto e o que eu sou… O problema é que eu te amo, não tenha dúvidas, pois isso não é mais secreto… Juntos morreríamos, pois nos amamos e de nós o mundo ficaria deserto… Eu vejo nossos filhos lembrando, com os seus filhos que já teriam seus netos… Que já teriam seus netos… Eu te amo… E eu também…” (Nando Reis – Meu mundo ficaria completo com você – Comp.: Nando Reis)

Confira outras músicas de Nando Reis:

“Procure interessar-se pelas crianças, que são o futuro do mundo. Cuide delas com amor, e não com indiferença. Quantos cárceres estão cheios, por falta de carinho nos lares! Não se esqueça de que o criminoso mais cruel foi, um dia, uma criança pura e inocente como todas as outras… Cuide das crianças com desvelo e carinho, e terá preparado um futuro feliz para a humanidade.” (Minutos de Sabedoria Pg. 142)

Bom dia pessoal,

Mais um final de semana chega e com ele a nossa expectativa de bons momentos entre as pessoas que nos são caras. Hoje a noite acontece na Fonte Nova o primeiro amistoso do Shaktar Donetski no Brasil. Enfrentando o Bahia, atual campeão baiano, o time ucraniano tem em seu elenco uma grande quantidade de jogadores brasileiros, entre eles Bernard, que disputou a Copa do Mundo pelo Brasil e Luis Adriano, atual artilheiro da Liga europeia, na qual disputam as oitavas de final. O Técnico Sergio Soares já apontou a escalação inicial do Bahia, com seis jogadores oriundos da base: Omar, Raylan, Adriano, Titi e Pará; Bruno Paulista, Feijão e Rômulo; Kieza, Maxi Biancucchi e William Santana. A partida acontece a partir das 20 horas.

Em nossa sugestão de leitura para o “Trabalhando com Poesia” de hoje textos do site Brasil 247. Vale a pena conferir:

Levy abre diálogo com o PIB e teme efeito Lava Jato – Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, visita a Fiesp na segunda-feira, onde será recebido por Paulo Skaf e outros pesos pesados, como Benjamin Steinbruch, que irão discutir formas de evitar o contágio da crise em decorrência da investigação da Polícia Federal na economia real; governo tem tentado evitar que o cenário afete o País; chefe da economia mandou mapear os volumes de papéis negociados pelas empreiteiras investigadas pela PF no mercado e seus prazos de vencimento; preocupação foi intensificada no início do mês, quando a OAS deu calote a credores brasileiros e internacionais e empresas tiveram notas rebaixadas pela Fitch; Levy tem hoje seu terceiro encontro com a presidente Dilma Rousseff em uma semana…

http://www.brasil247.com/pt/247/economia/166794/Levy-abre-di%C3%A1logo-com-o-PIB-e-teme-efeito-Lava-Jato.htm

Aeronáutica: falha humana causou acidente de Campos – Investigação aponta sequência de erros cometidos pelo piloto Marcos Martins como a causa da queda do jato Cessna em Santos, matando parte da comitiva do então presidenciável Eduardo Campos (PSB); relatório cita falta de treinamento, desentendimento entre os pilotos e condições meteorológicas, que teriam causado a chamada “desorientação espacial”; ‘sem dono’, legalidade do aparelho também é alvo da Polícia Federal e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac)…

http://www.brasil247.com/pt/247/pernambuco247/166739/Aeron%C3%A1utica-falha-humana-causou-acidente-de-Campos.htm

Volks readmite 800 funcionários e greve em SP acaba – Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a montadora apresentou uma nova oferta na negociação trabalhista iniciada no final do ano passado; com isso, acaba a greve que já durava dez dias e a produção na fábrica de São Bernardo do Campo será retomada a partir de segunda-feira; além da readmissão, a empresa fez alterações no Acordo Coletivo da categoria, que havia sido rejeitado em dezembro…

http://www.brasil247.com/pt/247/sp247/166776/Volks-readmite-800-funcion%C3%A1rios-e-greve-em-SP-acaba.htm

PML: “por cadeira de Haddad, Marta ataca Dilma” – Em nova postagem em seu blog no 247, o jornalista Paulo Moreira Leite comenta o ato de ruptura política protagonizado pela senadora Marta Suplicy; “É uma novidade ruim para o governo Dilma e boa para seus adversários”, sentencia; o blogueiro analisa que a provável saída da senadora do PT tende a criar muitas complicações à legenda em São Paulo, sobretudo para a reeleição do prefeito Fernando Haddad; “O problema é que Marta tem votos onde Haddad não tem e sua entrada na campanha vai se transformar num obstáculo para o crescimento do prefeito na periferia”, reforça; PML frisa, no entanto, que “os movimentos de Marta assumiram um caráter acima de tudo confuso, a começar pelo fato de que, candidata a um posto municipal, concentrou-se em denúncias e criticas de caráter federal”…

http://www.brasil247.com/pt/247/sp247/166732/PML-por-cadeira-de-Haddad-Marta-ataca-Dilma.htm

Pimenta no dos outros… Por Ribamar Fonseca – Habituados a apontar o dedo acusatório a petistas, pelos mesmos motivos, os tucanos se veem agora em dificuldades para explicar a acusação, que partiu de um policial federal e foi noticiada pelos jornalões – Os tucanos, que estão envolvidos até o pescoço no escândalo do cartel de trens do metrô paulista, começam a entrar em pânico diante dos novos depoimentos na Operação Lava-Jato, onde nomes de peso do PSDB, como o do ex-governador mineiro e atual senador Antonio Anastasia, já surgem entre os beneficiários do esquema de propinas na Petrobrás. Ele foi acusado pelo policial federal Jayme Oliveira Filho de ter recebido R$ 1 milhão, a mando do doleiro Alberto Youssef. Habituados a apontar o dedo acusatório a petistas, pelos mesmos motivos, os tucanos se veem agora em dificuldades para explicar a acusação, que partiu de um policial federal e foi noticiada pelos jornalões…

http://www.brasil247.com/pt/247/artigos/166601/Pimenta-no-dos-outros.htm

Veja a versão de hoje e as anteriores do “Trabalhando com Poesia”, no nosso blog “Espaço de Sobrevivência”. Nele você pode acessar links dos principais sites institucionais e de informações para seu uso. Visite, comente, indique:

https://oipa2.wordpress.com/2015/01/16/trabalhando-com-poesia-678

Abraços nos amigos beijos nas amigas e nos filhos, com os desejos de muito axé, energias positivas e que a vida e a paz possam sempre reinar em nossos corações e na nossa rotina. Uma sexta-feira abençoada por Deus e coberta pela paz do Alá de Oxalá! Bom final de semana e até segunda feira.

Apio Vinagre Nascimento
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Subversiva – Ferreira Gullar

A poesia
Quando chega
Não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos
Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha
Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.
E promete incendiar o país.

Poema sujo (trecho) – Ferreira Gullar

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta
Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís
do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos
e pais dentro de um enigma?
mas que importa um nome
debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre
cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de
garfos e facas e pratos de louças que se quebraram já
um prato de louça ordinária não dura tanto
e as facas se perdem e os garfos
se perdem pela vida caem
pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos
e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva-cidreira
e as grossas orelhas de hortelã
quanta coisa se perde
nesta vida
Como se perdeu o que eles falavam ali
mastigando
misturando feijão com farinha e nacos de carne assada
e diziam coisas tão reais como a toalha bordada
ou a tosse da tia no quarto
e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa
janela
tão reais que
se apagaram para sempre
Ou não?
Não sei de que tecido é feita minha carne e essa vertigem
que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás
e mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama,
ou dentro de um ônibus
ou no bojo de um Boeing 707 acima do Atlântico
acima do arco-íris
perfeitamente fora
do rigor cronológico
sonhando
Garfos enferrujados facas cegas cadeiras furadas mesas gastas
balcões de quitanda pedras da Rua da Alegria beirais de casas
cobertos de limo muros de musgos palavras ditas à mesa do
jantar,
voais comigo
sobre continentes e mares
E também rastejais comigo
pelos túneis das noites clandestinas
sob o céu constelado do país
entre fulgor e lepra
debaixo de lençóis de lama e de terror
vos esgueirais comigo, mesas velhas,
armários obsoletos gavetas perfumadas de passado,
dobrais comigo as esquinas do susto
e esperais esperais
que o dia venha
E depois de tanto
que importa um nome?
Te cubro de flor, menina, e te dou todos os nomes do mundo:
te chamo aurora
te chamo água
te descubro nas pedras coloridas nas artistas de cinema
nas aparições do sonho
– E esta mulher a tossir dentro de casa!
Como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada fraca,
O perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno.
E as formigas brotando aos milhões negras como golfadas de
dentro da parede (como se aquilo fosse a essência da casa)
E todos buscavam
num sorriso num gesto
nas conversas da esquina
no coito em pé na calçada escura do Quartel
no adultério
no roubo
a decifração do enigma
– Que faço entre coisas?
– De que me defendo?
Num cofo de quintal na terra preta cresciam plantas e rosas
(como pode o perfume
nascer assim?)
Da lama à beira das calçadas, da água dos esgotos cresciam
pés de tomate
Nos beirais das casas sobre as telhas cresciam capins
mais verdes que a esperança
(ou o fogo
de teus olhos)
Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade
sob as sombras da guerra:
a gestapo a wehrmacht a raf a feb a blitzkrieg
catalinas torpedeamentos a quinta-coulna os fascistas os nazistas os
comunistas o repórter Esso a discussão na quitanda a querosene o
sabão de andiroba o mercado negro o racionamento oblackout as
montanhas de metais velhos o italiano assassinado na Praça João
Lisboa o cheiro de pólvora os canhões alemães troando nas noites de
tempestade por cima da nossa casa. Stalingrado resiste.
Por meu pai que contrabandeava cigarros, por meu primo que passava
rifa, pelo tio que roubava estanho à Estrada de Ferro, por seu Neco
que fazia charutos ordinários, pelo sargento Gonzaga que tomava
tiquira com mel de abelha e trepava com a janela aberta,
pelo meu carneiro manso
por minha cidade azul
pelo Brasil salve salve,
Stalingrado resiste.
A cada nova manhã
nas janelas nas esquinas nas manchetes dos jornais
Mas a poesia não existia ainda.
Plantas. Bichos, Cheiros. Roupas.
Olhos. Braços. Seios. Bocas.
Vidraça verde, jasmim.
Bicicleta no domingo.
Papagaios de papel.
Retreta na praça.
Luto.
Homem morto no mercado
sangue humano nos legumes.
Mundo sem voz, coisa opaca.
Nem Bilac nem Raimundo. Tuba de alto clangor, lira singela?
Nem tuba nem lira grega. Soube depois: fala humana, voz de
gente, barulho escuro do corpo, intercortado de relâmpagos
Do corpo. Mas que é o corpo?
Meu corpo feito de carne e de osso.
Esse osso que não vejo, maxilares, costelas
flexível armação que me sustenta no espaço
que não me deixa desabar como um saco
vazio
que guarda as vísceras todas
funcionando
como retortas e tubos
fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento
e as palavras
e as mentiras
e os carinhos mais doces mais sacanas
mais sentidos
para explodir uma galáxia
de leite
no centro de tuas coxas no fundo
de tua noite ávida
cheiros de umbigo e de vagina
graves cheiros indecifráveis
como símbolos
do corpo
do teu corpo do meu corpo
corpo
que pode um sabre rasgar
um caco de vidro
uma navalha
meu corpo cheio de sangue
que o irriga como a um continente
ou um jardim
circulando por meus braços
por meus dedos
enquanto discuto caminho
lembro relembro
meu sangue feito de gases que aspiro
dos céus da cidade estrangeira
com a ajuda dos plátanos
e que pode – por um descuido – esvair-se por meu
pulso
aberto
Meu corpo
que deitado na cama vejo
como um objeto no espaço
que mede 1,70m
e que sou eu: essa coisa deitada
barriga pernas e pés
com cinco dedos cada um (por que
não seis?)
joelhos e tornozelos
para mover-se
sentar-se
levantar-se
meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo
meu corpo feito de água
e cinza
que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio
e me sentir misturado
a toda essa massa de hidrogênio e hélio
que se desintegra e reintegra
sem se saber pra quê
Corpo meu corpo corpo
que tem um nariz assim uma boca
dois olhos
e um certo jeito de sorrir
de falar
que minha mãe identifica como sendo de seu filho
que meu filho identifica
como sendo de seu pai
corpo que se pára de funcionar provoca
um grave acontecimento na família:
sem ele não há José Ribamar Ferreira
não há Ferreira Gullar
e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta
estarão esquecidas para sempre
corpo-facho corpo-fátuocorpo-fato
atravessados de cheiros de galinheiros e rato
na quitanda ninho
de rato
cocô de gato
sal azinhavre sapato
brilhantina anel barato
língua no cu na boceta cavalo-de-crista chato
nos pentelhos
com meu corpo-falo
insondável incompreendido
meu cão doméstico meu dono
cheio de flor e de sono
meu corpo-galáxia aberto a tudo cheio
de tudo como um monturo
de trapos sujos latas velhas colchões usados sinfonias
sambas e frevos azuis
de Fra Angelico verdes
de Cézanne
matéria-sonho de Volpi
Mas sobretudo meu
corpo
nordestino
Mais que isso
maranhense
mais que isso
sanluisense
mais que isso
ferreirense
newtoniense
alzirense
meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres
ao lado de uma padaria sob o signo de Virgo
sob as balas do 24º BC
na revolução de 30
e que desde então segue pulsando como um relógio
num tic tac que não se ouve
(senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)
tic tac tic tac
enquanto vou entre automóveis e ônibus
entre vitrinas de roupas
nas livrarias
nos bares
tic tac tic tac
pulsando há 45 anos
esse coração oculto
pulsando no meio da noite, da neve, da chuva
debaixo da capa, do paletó, da camisa
debaixo da pele, da carne,
combatente clandestino aliado da classe operária
meu coração de menino (…)

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