Trabalhando com Poesia

Se você vier me perguntar por onde andei, no tempo em que você sonhava. De olhos abertos, lhe direi: Amigo, eu me desesperavaSei que assim falando, pensas que esse desespero é moda, em 76, mas ando mesmo descontente, desesperadamente eu grito em portuguêsTenho vinte e cinco anos, de sonho e de sangue e de América do SulPor força deste destino, um tango argentino, me vai bem melhor que um blues. Sei que assim falando pensas, que esse desespero é moda em 76E eu quero é que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocêsE eu quero é que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês (BelchiorA palo seco – Comp.: Belchior)

https://www.youtube.com/watch?v=SEsWJJAZ8pY

Eu sou apenas um rapaz, Latino-Americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, e vindo do interior… Mas trago de cabeça uma canção do rádio, em que um antigo compositor baiano me dizia, tudo é divino, tudo é maravilhoso… Mas trago de cabeça uma canção do rádio, em que um antigo compositor baiano me dizia, tudo é divino, tudo é maravilhoso… Tenho ouvido muitos discos, conversado com pessoas, caminhado meu caminho, papo, som, dentro da noite, e não tenho um amigo sequer, que ainda acredite nisso não, tudo muda! E com toda razão… Eu sou apenas um rapaz, Latino-Americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, e vindo do interior… Mas sei que tudo é proibido, aliás, eu queria dizer que tudo é permitido, até beijar você, no escuro do cinema, quando ninguém nos vê… Mas sei que tudo é proibido, aliás, eu queria dizer que tudo é permitido, até beijar você, no escuro do cinema, quando ninguém nos vê… Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve, correta, branca, suave, muito limpa, muito leve, sons, palavras, são navalhas, e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém… Mas não se preocupe meu amigo, com os horrores que eu lhe digo, isso é somente uma canção, a vida realmente é diferente, quer dizer, ao vivo é muito pior… E eu sou apenas um rapaz Latino-Americano, sem dinheiro no banco… Por favor não saque a arma no “saloon”, eu sou apenas o cantor… Mas se depois de cantar, você ainda quiser me atirar, mate-me logo! À tarde, às três, que à noite, tenho um compromisso e não posso faltar, por causa de vocês… Mas se depois de cantar, você ainda quiser me atirar, mate-me logo! À tarde, às três, que à noite, tenho um compromisso e não posso faltar, por causa de vocês… Eu sou apenas um rapaz Latino-Americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior… Mas sei que nada é divino, nada, nada é maravilhoso, nada, nada é secreto, nada, nada é misterioso, não(BelchiorApenas um rapaz latino americano – Comp.: Belchior)

https://www.youtube.com/watch?v=Wk9JsWYIlWE

Eu não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia, nem no algo mais. Nem em tinta pro meu rosto, ou oba oba, ou melodia, para acompanhar bocejos, sonhos matinais… Eu não estou interessado em nenhuma teoria, nem nessas coisas do oriente, romances astrais. A minha alucinação é suportar o dia-a-dia, e meu delírio é a experiência com coisas reais… Um preto, um pobre, uma estudante, uma mulher sozinha… Blue jeans e motocicletas, pessoas cinzas normais, garotas dentro da noite, revólver: cheira cachorro, os humilhados do parque, com os seus jornais… Carneiros, mesa, trabalho, meu corpo que cai do oitavo andar, e a solidão das pessoas dessas capitais… A violência da noite, o movimento do tráfego, um rapaz delicado e alegre, que canta e requebra, é demais!… Cravos, espinhas no rosto, rock, Hot Dog, “Play it cool, Baby”… Doze Jovens Coloridos, dois Policiais, cumprindo o seu duro dever e defendendo o seu amor, e nossa vida… Cumprindo o seu duro dever e defendendo o seu amor, e nossa vida… Mas eu não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia, nem no algo mais, longe o profeta do terror, que a laranja mecânica anuncia… Amar e mudar as coisas, me interessa mais… Amar e mudar as coisas… Amar e mudar as coisas, me interessa mais… Um preto, um pobre, uma estudante, uma mulher sozinha… Blue jeans e motocicletas, pessoas cinzas normais, garotas dentro da noite, revólver: cheira cachorro, os humilhados do parque, com os seus jornais… Carneiros, mesa, trabalho, meu corpo que cai do oitavo andar, e a solidão das pessoas dessas capitais… A violência da noite, o movimento do tráfego, um rapaz delicado e alegre, que canta e requebra, é demais!… Cravos, espinhas no rosto, rock, Hot Dog, “Play it cool, Baby”… Doze Jovens Coloridos, dois Policiais, cumprindo o seu duro dever e defendendo o seu amor, e nossa vida… Cumprindo o seu duro dever e defendendo o seu amor, e nossa vida… Mas eu não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia, nem no algo mais, longe o profeta do terror, que a laranja mecânica anuncia… Amar e mudar as coisas, me interessa mais… Amar e mudar as coisas… Amar e mudar as coisas, me interessa mais…(BelchiorAlucinação – Comp.: Belchior)

https://www.youtube.com/watch?v=4ppq20oqW9c

Assim como os universos foram criados pela palavra de Deus, assim também nossos pequenos mundos individuais são criados pelas nossas palavras. E as palavras são a manifestação dos pensamentos, a fim de criar um mundo de paz e beleza, de saúde e felicidade, através de palavras amáveis e delicadas, corteses e animadoras. Lembre-se de que, uma vez proferida uma palavra, nada mais a destrói. ” (Minutos de Sabedoria Pg. 164)

Bom dia pessoal,

Como foram de final de semana? Espero que bem. Semana começa com a expectativa do andamento no senado federal, que deve instalar hoje a Comissão que analisará o pedido de Impeachment da Presidenta Dilma. Considerado o desenho da comissão e do próprio plenário do senado, a pressão popular contra o Golpe precisa ser ainda mais ampliada. Vamos à Luta!!!

Durante essa semana, o “Trabalhando com Poesia” visitará algumas escritas do poeta Alberto Caeiro, última visita semanal nossa aos heterônimos de Fernando Pessoa, antes de ir a sua obra de própria assinatura, semana que vem. Espero que estejam apreciando a viagem ao mundo criado por Pessoa.

Alberto Caeiro da Silva (Lisboa, 16 de Abril de 1889 ou Agosto de 1887 – Junho de 1915) foi uma personagem ficcional (heterônimo) criada por Fernando Pessoa, sendo considerado o Mestre Ingenuo dos restantes heterônimos (Álvaro de Campos e Ricardo Reis) e do seu próprio autor, apesar de apenas ter feito a instrução primária.

Foi um poeta ligado à natureza, que despreza e repreende qualquer tipo de pensamento filosófico, afirmando que pensar obstrui a visão (“pensar é estar doente dos olhos”). Proclama-se assim um anti-metafísico. Afirma que, ao pensar, entramos num mundo complexo e problemático onde tudo é incerto e obscuro. À superfície é fácil reconhecê-lo pela sua objetividade visual, que faz lembrar Cesário Verde, citado muitas vezes nos poemas de Caeiro por seu interesse pela natureza, pelo verso livre e pela linguagem simples e familiar. Apresenta-se como um simples “guardador de rebanhos” que só se importa em ver de forma objetiva e natural a realidade. É um poeta de completa simplicidade, e considera que a sensação é a única realidade.

Biografia

Segundo a cronologia mais divulgada, nasceu em 16 de Abril de 1889, em Lisboa. Órfão de pai e mãe, não exerceu qualquer profissão e estudou apenas até a 4º classe. Viveu grande parte da sua vida pobre e frágil no Ribatejo, na quinta da sua tia-avó idosa, e aí escreveu O Guardador de Rebanhos e depois O Pastor Amoroso. Voltou no final da sua curta vida para Lisboa, onde escreveu Os Poemas Inconjuntos, antes de morrer de tuberculose, em 1915, quando contava apenas vinte e seis anos.

Veja mais em https://pt.wikipedia.org/wiki/Alberto_Caeiro

No prefácio Musical, a música do cantor e compositor Belchior. Espero que gostem.

Em nossa sugestão de leitura para o “Trabalhando com Poesia” de hoje textos do site Brasil 247. Vale a pena conferir:

Guru de Temer diz que Bolsa Família está inchado – Economista Ricardo Paes de Barros, que ajudou a formular as propostas de política social do PMDB, diz que, com Michel Temer, várias pessoas deixarão de receber o Bolsa Família porque não são pobres de fato: “ é evidente que o Brasil não tem tantos pobres assim quanto tem hoje no Bolsa Família. É claro que o Bolsa Família está inchado”; ele afirma que a política pública foi expandida de maneira “generosa” e está carregada de “ineficiências”; “Ao corrigir as ineficiências, podemos alcançar os mesmos resultados ou até mais, gastando menos”, diz; ele sugere ainda revisões no Pronatec, que “não pode dar cursos às cegas para os desempregados”…

http://www.brasil247.com/pt/247/brasil/228016/Guru-de-Temer-diz-que-Bolsa-Fam%C3%ADlia-est%C3%A1-inchado.htm

 

Temer: rejeição, delação e desdém tucano – As notícias do final de semana sobre a impopularidade do vice-presidente Temer e sobre as bombas da Lava Jato que começam a cair sobre sua cabeça ampliaram a resistência do PSDB a embarcar na canoa do virtual futuro governo. “Temos o dever de apoiá-lo e sustentá-lo, politicamente, mas sem cargo e sem pasta. Repito: sem cargo e sem pasta”,  disse ontem ao Globo o governador Geraldo Alckmin. Nem por isso o senador José Serra, que pensa o contrário, deixou de encontrar-se ontem à noite com Temer. O senador Aécio Neves não se posicionou claramente mas ele já colocou sua digital no golpe ao indicar como relator da comissão especial que o Senado elege hoje alguém que quase se confunde com ele: Antônio Anastasia, que foi seu vice, sucessor e é seu leal seguidor…

http://www.brasil247.com/pt/blog/terezacruvinel/228005/Temer-rejei%C3%A7%C3%A3o-dela%C3%A7%C3%A3o-e-desd%C3%A9m-tucano.htm

 

Se a Fazenda está entre Serra e Meirelles, Michel Temer está perdido Reportagem desta segunda-feira da jornalista Claudia Safatle, publicada no Valor Econômico, aponta que a disputa pelo Ministério da Fazenda de um eventual governo Michel Temer se afunilou em dois nomes: o senador José Serra (PSDB-SP) e o banqueiro Henrique Meirelles; isso demonstra que o vice Michel Temer avalia duas soluções praticamente antagônicas, uma vez que Serra, intervencionista, representa o oposto de Meirelles, que se notabilizou, no governo Lula, pelo receituário ortodoxo no Banco Central; numa entrevista recente, Serra disse que Meirelles foi o “pior presidente da história do BC”, quando, na verdade, foi com Meirelles que o Brasil atingiu o grau de investimento e a menor taxa de risco de sua história; nessa disputa, tanto Meirelles como Serra exigem poder total na economia

http://www.brasil247.com/pt/247/economia/228020/Se-a-Fazenda-est%C3%A1-entre-Serra-e-Meirelles-Michel-Temer-est%C3%A1-perdido.htm

 
Rui Falcão: ‘Golpe é comandado por um traidor’ – Presidente do PT, Rui Falcão, disse, na abertura do seminário internacional da Aliança Progressista, que o vice-presidente Michel Temer “comanda o golpe” contra a presidente Dilma Rousseff e prepara um conjunto de medidas, que incluem a “supressão de direitos civis e sociais, de privatizações e de entrega do patrimônio nacional a grupos estrangeiros”; “Comanda o golpe o vice-presidente da República, que registra 1% de intenção de voto, caso passasse pelo teste das urnas. E que acumula nas pesquisas uma rejeição próxima de 80%. Traidor de sua colega de chapa, contra a qual conspira abertamente, Temer já anunciou um programa antipopular, de supressão de direitos civis e sociais, de privatizações e de entrega do patrimônio nacional a grupos estrangeiros”, afirmou; declarações fazem parte da estratégia para denunciar o golpe à comunidade internacional…

http://www.brasil247.com/pt/247/poder/228077/Rui-Falc%C3%A3o-‘Golpe-%C3%A9-comandado-por-um-traidor’.htm

 

Miami Herald: Dilma é ficha limpa e brasileiros deveriam decidir nas urnas – Mais um importante jornal dos EUA defende Dilma Rousseff e denuncia o impeachment como um instrumento político, que não deveria ser usado da forma como está sendo usado no Brasil; jornal lembra que Bill Clinton sofreu um impeachment da Câmara dos Deputados, mas o processo foi derrubado no Senado; enfatiza ainda que Dilma tem a ficha limpa, não está envolvida em nenhum escândalo, ao contrário de Eduardo Cunha, o deputado que presidiu a sessão do impeachment, e Michel Temer, que pretende ocupar seu lugar…

http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/228028/Miami-Herald-Dilma-%C3%A9-ficha-limpa-e-brasileiros-deveriam-decidir-nas-urnas.htm

 
Zé de Abreu no Faustão: o bem que veio do mal – Fernando Brito, do Tijolaço, destaca que, ao narrar no Domingão do Faustão o episódio em que cuspiu em uma pessoa após ser xingado em um restaurante com sua mulher, o ator José de Abreu aproveitou o espaço para denunciar o golpe contra Dilma Rousseff: “Se todos que sabem deste óbvio falassem publicamente, o Brasil retomaria a esperança de que a vergonha pública cessaria no país. Inclusive os “globais” que, como registrou o próprio Zé de Abreu, escondem sua própria covardia alegando temor de represálias”…

http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/228029/Z%C3%A9-de-Abreu-no-Faust%C3%A3o-o-bem-que-veio-do-mal.htm

 
Temer 1% – Michel Temer nunca foi bom de voto, porque nunca teve prestígio, nunca teve apoio popular. Na última eleição em que buscou o voto popular, para deputado federal, em 2006, teve que entrar na Justiça para superar a um outro candidato e poder, com seus parcos 70 mil votos, continuar deputado federal.

http://www.brasil247.com/pt/blog/emirsader/228024/Temer-1.htm

Veja a versão desta segunda feira e as anteriores do “Trabalhando com Poesia”, no nosso blog “Espaço de Sobrevivência”. Nele você pode acessar links dos principais sites institucionais e de informações para seu uso. Visite, comente, indique:

https://oipa2.wordpress.com/2016/04/25/trabalhando-com-poesia-703

Abraços nos amigos beijos nas amigas e nos filhos, com os desejos de muito axé, energias positivas e que a vida e a paz possam sempre reinar em nossos corações e na nossa rotina. Uma Segunda-feira abençoada por Deus, repleta da energia positiva e caminhos abertos a nossa frente.

Apio Vinagre Nascimento

e-mail: apiovinagre.adv@gmail.com

e-mail 1: apio.vinagre @pedraevinagre.adv.br

e-mail 2: oipa2@hotmail.com

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Acho tão natural que não se pense – Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa

Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa…

Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas…
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente…

Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha…
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos…
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.

https://www.youtube.com/watch?v=mbO6hFlAkRo

A espantosa realidade das cousas – Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa

A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

https://www.youtube.com/watch?v=fJSvk-bF5kM

Deste modo ou daquele modo – Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa

Deste modo ou daquele modo,
Conforme calha ou não calha,
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.

Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à ideia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras.
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.

E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.

Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.

Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos.

https://www.youtube.com/watch?v=Y_8Eek7zMrg

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